Os limites da cocriação de software junto aos clientes

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Por Davi Filgueiras, Head de Transformação Digital da Guiando

No processo de construção e implementação de soluções tecnológicas, não existe nada melhor do que trabalhar ao lado de seu maior stakeholder: o usuário. Ele oferece insumos preciosos que reduzem o esforço requerido e geram maior assertividade. A cocriação, no entanto, tem limites que, se trespassados, podem afetar o resultado final, frustrando ambas as partes.

A premissa da cocriação é ter o feedback de alguém sobre o que se está construindo. Por isso, é preciso encontrar o equilíbrio nas trocas. As empresas que procuram a solução precisa escutar a expertise de quem atua nesse mercado e conhece diferentes casos; ao mesmo tempo, o fornecedor do produto precisa se atentar às demandas do cliente, mas sem se apoiar nelas, enviesando para a customização absoluta. Vamos a alguns cases.

Certa vez, fizemos uma integração para pagamento de faturas no ERP de um cliente. Na reunião, ele deixou claro que entendeu as necessidades e levantou quais tipos de fatura seriam lançadas, mas não quis entrar em detalhes sobre os meandros desse processo. Ele mesmo construiu sua API dentro de casa e disse que, ao final do desenvolvimento, enviaria as informações do endpoint e json.


O resultado foi o pior possível. Dois meses depois, quando enviaram os dados para testes, batemos o olho e identificamos que não estava contemplado o elemento mais importante para o pagamento: o código de barras. Com nosso feedback, esse item entrou novamente na “esteira”, e lá se foram mais 30 dias de desenvolvimento até que entregassem uma versão que realmente resolvesse os problemas.

Do outro lado, já escutei colegas de trabalho convictos de que entendiam muito sobre determinado assunto e direcionaram todo esse conhecimento para criar uma funcionalidade/solução. Porém, uma vez finalizado, o projeto não atendeu às necessidades do usuário.

Na cocriação, o detentor da solução precisa ter olhos e ouvidos atentos ao cliente, de forma a lapidar o projeto seguindo às suas dores reais do dia a dia. Porém, há um limite na personalização de um produto que pode torná-lo muito nichado e fugir da função de resolver um problema macro do mercado.

A Guiando tinha esse hábito, anos atrás. Não era algo que nos causava prejuízo, mas consumia horas de trabalho e nos afastava cada vez mais de uma solução SAAS. O viés tarefeiro de fazer o que o negócio pedia era real. Porém, com o passar do tempo, aprendemos a romper a barreira e deixar o desenvolvedor mais próximo do cliente, escutando suas dores e sanando dúvidas, sem os joelhos naturais do processo de criação de software.


Com isso, funcionalidades que seriam customizadas acabaram se tornando parametrizadas para atender quase 100% dos clientes da base. O resultado foi a queda do nível de complexidade e tempo de desenvolvimento.

A cocriação é muito enriquecedora e frutífera se executada as duas partes estiverem abertas a ouvir, compartilhar e debater. No nosso caso, transformamos os entraves que surgiram em oportunidades de negócio. Espero que ajude a inspirar quem trilha esse mesmo caminho.

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